O Livro de Cesário Verde — Cesário Verde
Versão para impressão Índice Crise Romanesca Deslumbramentos Setentrional Meridional Ironias do desgosto Humilhações Responso Contrariedades Naturais A Débil Num bairro moderno Cristalizações Noites gélidas Sardenta Flores velhas Noite fechada Manhãs brumosas Frígida De verão O Sentimento dum ocidental De tarde Em petiz Nós Provincianas Poesias dispersas Impossível Lágrimas Pró pudor! Manias A Forca Num tripúdio de corte rigoroso Ó áridas Messalinas Eu e ela Lúbrica Heroísmos Cinismos Arrojos Esplêndida Cadências tristes Vaidosa Desastre Loira Ele Num álbum Milady , é perigoso contemplá-la, Quando passa aromática e normal, Com seu tipo tão nobre e tão de sala, Com seus gestos de neve e de metal. Sem que nisso a desgoste ou desenfade, Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas, Eu vejo-a, com real solenidade, Ir impondo toilettes complicadas!... Em si tudo me atrai como um tesouro: O seu ar pensativo e senhoril, A sua voz que tem um timbre de ouro E o seu nevado e lúcido perfil! Ah! Como me estonteia e me fascina... E é, na graça distinta do seu porte, Como a Moda supérflua e feminina, E tão alta e serena como a Morte!... Eu ontem encontrei-a, quando vinha, Britânica, e fazendo-me assombrar; Grande dama fatal, sempre sozinha, E com firmeza e música no andar! O seu olhar possui, num jogo ardente, Um arcanjo e um demônio a iluminá-lo; Como um florete, fere agudamente, E afaga como o pêlo dum regalo! Pois bem. Conserve o gelo por esposo, E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos, O modo diplomático e orgulhoso Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos. E enfim prossiga altiva como a Fama, Sem sorrisos, dramática, cortante; Que eu procuro fundir na minha chama Seu ermo coração, como um brilhante. Mas cuidado, milady , não se afoite, Que hão de acabar os bárbaros reais; E os povos humilhados, pela noite, Para a vingança aguçam os punhais. E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas, Sob o cetim do Azul e as andorinhas, Eu hei-de ver errar, alucinadas, E arrastando farrapos - as rainhas! Talvez já te não lembres, triste Helena, Dos passeios que dávamos sozinhos, À tardinha, naquela terra amena, No tempo da colheita dos bons vinhos. Talvez já te não lembres, pesarosa, Da casinha caiada em que moramos, Nem do adro da ermida silenciosa, Onde nós tantas vezes conversamos. Talvez já te esquecesses, ó bonina, Que viveste no campo só comigo, Que te osculei a boca purpurina, E que fui o teu sol e o teu abrigo. Que fugiste comigo da Babel, Mulher como não há nem na Circássia, Que bebemos, nós dois, do mesmo fel, E regamos com prantos uma acácia. Talvez já te não lembres com desgosto Daquelas brancas noites de mistério, Em que a Lua sorria no teu rosto E nas lajes campais do cemitério. Talvez já se apagassem as miragens Do tempo em que eu vivia nos teus seios, Quando as aves cantando entre as ramagens O teu nome diziam nos gorjeios. Quando, à brisa outoniça, como um manto, Os teus cabelos de âmbar, desmanchados, Se prendiam nas folhas dum acanto, Ou nos bicos agrestes dos silvados. E eu ia desprendê-los, como um pajem Que a cauda solevasse aos teus vestidos, E ouvia murmurar à doce aragem Uns delírios de amor, entristecidos. Quando eu via, invejoso, mas sem queixas, Pousarem 'borboletas doidejantes Nas tuas formosíssimas madeixas, Daquela cor das messes lourejantes. E no pomar, nós dois, ombro com ombro, Caminhávamos sós e de mãos dadas, Beijando os nossos rostos sem assombro, E colorindo as faces desbotadas. Quando Helena, bebíamos, curvados, As águas nos ribeiros remansosos, E, nas sombras, olhando os céus amados Contávamos os astros luminosos. Quando, uma noite, em êxtases caímos Ao sentir o chorar dalgumas fontes, E os cânticos das rãs que sobre os limos Quebravam a solidão dos altos montes. E assentados nos rudes escabelos, Sob os arcos de murta e sobre as relvas, Longamente sonhamos sonhos belos, Sentindo a fresquidão das verdes selvas. Quando ao nascer da aurora, unidos ambos Num amor grande como um mar sem praias Ouvíamos os meigos ditirambos Que os rouxinóis teciam nas olaias. E, afastados da aldeia e dos casais, Eu contigo, abraçado como as heras, Escondidos nas ondas dos trigais. Devolvia-te os beijos que me deras. Quando, se havia lama no caminho, Eu te levava ao colo sobre a greda, E o teu corpo nevado como arminho Pesava menos que um papel de seda. Talvez já te esquecesses dos poemetos, Revoltos como os bailes do Cassino, E daqueles byrônicos sonetos Que eu gravei no teu peito alabastrino. De tudo certamente te esqueceste, Porque tudo no mundo morre e muda, E agora és triste e só como um cipreste, E como a campa jazes fria e muda. Esqueceste-te, sim, meu sonho querido, Que o nosso belo e lúcido passado Foi um único abraço comprimido, Foi um beijo, por meses, prolongado. E foste sepultar-te, ó serafim, No claustro das Fiéis emparedadas, Escondeste o teu rosto de marfim No véu negro das freiras resignadas. E eu passo tão calado como a Morte Nesta velha cidade tão sombria, Chorando aflitamente a minha sorte E prelibando o cálix da agonia, E, tristíssima Helena, com verdade, Se pudera na terra achar suplícios, Eu também me faria gordo frade E cobriria a carne de cilícios. Cabelos Ó vagas de cabelo esparsas longamente, Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar, E tendes o cristal dum lago refulgente E a rude escuridão dum largo e negro mar; Cabelos torrenciais daquela que me enleva, Deixai-me mergulhar as mãos e os braços nus No báratro febril da vossa grande treva, Que tem cintilações e meigos céus de luz. Deixai-me navegar, morosamente, a remos, Quando ele estiver brando e livre de tufões, E, ao plácido luar, ó vagas, marulhemos E enchamos de harmonia as amplas solidões. Deixai-me naufragar no cimo dos cachopos Ocultos nesse abismo ebânico e tão bom Como um licor renano a fermentar nos copos, Abismo que se espraia em rendas de Alençon! E, ó mágica mulher, ó minha Inigualável, Que tens o imenso bem de ter cabelos tais, E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbável, Entre o rumor banal dos hinos tri