O Guarani — José de Alencar
O Guarani Índice Ao leitor Primeira Parte: Os aventureiros Capítulo I: Cenário Capítulo II: Lealdade Capítulo III: A bandeira Capítulo IV: Caçada Capítulo V: Loura e morena Capítulo VI: A volta Capítulo VII: A prece Capítulo VIII: Três linhas Capítulo IX: Amor Capítulo X: Ao alvorecer Capítulo XI: No banho Capítulo XII: A onça Capítulo XIII: Revelação Capítulo XIV: A Índia Capítulo XV: Os três Segunda Parte: Peri Capítulo I: O carmelita Capítulo II: Iara! Capítulo III: Gênio do mal Capítulo IV: Ceci Capítulo V: Vilania Capítulo VI: Nobreza Capítulo VII: No precipício Capítulo VIII: O bracelete Capítulo IX: Testamento Capítulo X: Despedida Capítulo XI: Travessura Capítulo XII: Pelo ar Capítulo XIII: Trama Capítulo XIV: A xácara Terceira Parte: Os Aimorés Capítulo I: Partida Capítulo II: Preparativos Capítulo III: Verme e flor Capítulo IV: Na treva Capítulo V: Deus dispõe Capítulo VI: Revolta Capítulo VII: Os selvagens Capítulo VIII: Desânimo Capítulo IX: Esperança Capítulo X: Na brecha Capítulo XI: O frade Capítulo XII: Desobediência Capítulo XIII: Combate Capítulo XIV: O prisioneiro Quarta Parte: A catástrofe Capítulo I: Arrependimento Capítulo II: O sacrifício Capítulo III: Sortida Capítulo IV: Revelação Capítulo V: O paiol Capítulo VI: Trégua Capítulo VII: Peleja Capítulo VIII: Noiva Capítulo IX: O castigo Capítulo X: Cristão Capítulo XI: Epílogo Ao leitor Publicado este livro em 1857, se disse ser aquela primeira edição uma prova tipográfica, que algum dia talvez o autor se dispusesse a rever. Esta nova edição devia dar satisfação do empenho, que a extrema benevolência do público ledor, tão minguado ainda, mudou em bem para dívida de reconhecimento. Mais do que podia fiou de si o autor. Relendo a obra depois de anos, achou ele tão mau e incorreto quanto escrevera, que para bem corrigir, fora mister escrever de novo. Para tanto lhe carece o tempo e sobra o tédio de um labor ingrato. Cingiu-se pois às pequenas emendas que toleravam o plano da obra e o desalinho de um estilo não castigado. Capítulo I: Cenário I SCENARIO De um dos cabeços da Serra dos Orgãos deslisa um fio d’água que se dirige para o norte, e engrossado com os mananciaes que recebe no seu curso de dez leguas, torna-se um rio caudal. É o Paquequer que, saltando de cascata em cascata, enroscando-se como uma serpente, vai depois espreguiçar-se indolente na varzea e embeber-se no Parahyba, que corre magestosamente no seu vasto leito. Dir-se-hia que, vassallo e tributario desse rei das águas, o pequeno rio, altivo e sobranceiro contra os rochedos, curva-se humildemente aos pés do seu suzerano. Perde então a belleza selvagem; suas ondas são calmas e serenas como as de um lago, e não se revoltão contra os barcos e as canôas que resvalão sobre ellas: escravo submisso, soffre o latego do senhor. Não é neste lugar que se deve vel-o ; é sim tres ou quatro leguas acima de sua foz, onde é livre ainda, como o filho indomito dessa terra da liberdade. Ahi, o Paquequer lança-se rapido sobre o seu leito, e atravessa as florestas como um tapir, espumando, deixando o seo pello esparso pelas pontas do rochedo, e enchendo a solidão com o estampido de sua carreira. De repente, falta-lhe o espaço, foge-lhe a terra; o soberbo rio recúa um momento para concentrar as suas forças, e precipita-se de um só arremesso, como o tigre sobre a sua presa. Depois, fatigado do esforço supremo, estende-se sobre a terra, e adormece n’uma linda bacia que a natureza formou, e onde o recebe como em um leito de noiva, sob as cortinas de trepadeiras e flores agrestes. A vegetação nessas paragens ostenta todo o seu luxo e vigor; florestas virgens se estendem ao longo das margens do rio, que corre no meio das arcarias de verdura, e dos capiteis formados pelos leques das palmeiras. Tudo é grande e pomposo neste scenario que a natureza, sublime artista, decorou para os dramas magestosos dos elementos, em que o homem é apenas um simples comparsa. No anno da graça de 1604, o lugar que acabamos de descrever estava quasi deserto e inculto; a cidade do Rio de Janeiro tinha-se fundado havia menos de meio seculo, e a civilisação não tivera tempo de penetrar até o interior. Entretanto, via-se á margem direita do rio uma casa larga e espaçosa, construida sobre uma eminencia, e protegida de todos os lados por uma muralha de rocha cortada a pique. A esplanada sobre que estava assentado o edificio, formava um semi-circulo irregular que teria quando muito setenta braças quadradas: do lado do norte havia uma especie de escada de lagedo feita metade pela natureza, e metade pela arte. Descendo dous ou tres dos largos degráos de pedra da escada, encontrava-se uma ponte de madeira solidamente construida sobre uma fenda larga e profunda que se abria na rochas. Continuando a descer, chegava-se á beira do rio, que se curvava em um seio gracioso, sombreado pelas grandes gameleiras e angelins que crescião ao longo das margens. Ahi, ainda a industria do homem tinha aproveitado habilmente a natureza para crear meios de segurança e de defeza. De um e de outro lado da escada seguião dous renques de arvores, que, alargando-se gradualmente, ião fechar como dous braços o seio do rio; entre o tronco dessas arvores, uma alta cerca de espinheiros tornava aquele pequeno vale impenetravel. A casa era edificada com essa architectura simples e grosseira, que ainda apresentão as nossas primitivas habitações; tinha cinco janellas de frente, baixas, largas, quasi quadradas. Do lado direito estava a porta principal do edificio, que dava sobre um pateo cercado por uma estacada, coberta de melões agrestes, Do lado esquerdo estendia-se até á borda da esplanada uma asa do edificio, que abria duas janellas sobre o desfiladeiro da rocha, cortada quasi perpendicularmente. No angulo que esta asa fazia com o resto da casa, havia uma cousa que chamaremos jardim, e que de facto era uma imitação graciosa de toda essa natureza rica, vigorosa e esplendida, que a vista abraçava do alto do rochedo. Flores agrestes das nossas m