Mensagem — Fernando Pessoa
Mensagem FERNANDO PESSOA MENSAGEM LISBOA 1934 PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA 44 RUA AUGUSTA 54 Nota Preliminar Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles. A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar. A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja. A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado. A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes. A quinta é a menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo. Notas A epígrafe, em latim, trata das cinco qualidades ou condições que “o entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete”. (Fernando Pessoa. Obra Poética. Volume único. Rio: Nova Aguilar, 1981, p. 3). O próprio Pessoa a teria traduzido – não literalmente – por “Bendito seja Deus Nosso Senhor, que nos deu o Verbo” (A Procura da Verdade Oculta-Textos filosóficos e esotéricos, apresentados e anotados por António Quadros, Livros de Bolso Europa-América nº 471.). Na tradução de Pessoa, "Verbo" deve significar “palavra” que, afinal, é também um símbolo, tão demiúrgico quanto o é o “Verbo que se fez homem”. Contudo, uma tradução menos livre seria “Bendito seja Deus Nosso Senhor que nos deu o símbolo". O dos Castellos A Europa jaz, posta nos cotovellos: De Oriente a Occidente jaz, fitando, E toldam-lhe romanticos cabellos Olhos gregos, lembrando. O cotovello esquerdo é recuado; O direito é em angulo disposto. Aquelle diz Italia onde é pousado; Este diz Inglaterra onde, afastado, A mão sustenta, em que se appoia o rosto. Fita, com olhar sphyngico e fatal. O Occidente, futuro do passado. O rosto com que fita é Portugal. O das Quinas Vendem os Deuses o que dão. A gloria compra-se a desgraça. Ai dos felizes, porque são Só o que passa! Baste a quem basta o que lhe basta! O bastante de lhe bastar! A vida é breve, a alma é vasta: Ter é tardar. Foi com desgraça e com vileza Que Deus ao Christo definiu : Assim o oppoz à Natureza E Filho o ungiu Ulysses O mytho é o nada que é tudo. O mesmo sol que abre os céus É um mytho brilhante e mudo O corpo morto de Deus, Vivo e desnudo. Este, que aqui aportou, Foi por não ser existindo. Sem existir nos bastou. Por não ter vindo foi vindo E nos creou. Assim a lenda se escorre A entrar na realidade, E a fecundal-a decorre. Em baixo, a vida, metade De nada, morre. Viriato Se a alma que sente e faz conhece Só porque lembra o que esqueceu, Vivemos, raça, porque houvesse Memoria em nós do instincto teu. Nação porque reincarnaste, Povo porque resuscitou Ou tu, ou o de que eras a haste — Assim se Portugal formou. Teu ser é como aquella fria Luz que precede a madrugada, E é já o ir a haver o dia Na antemanhã, confuso nada. O Conde D. Henrique Todo começo é involuntario. Deus é o agente. O heroe a si assiste, vario E inconsciente. À espada em tuas mãos achada Teu olhar desce. «Que farei eu com esta espada?» Ergueste-a, e fez-se. D. Tareja As nações todas são mysterios. Cada uma é todo o mundo a sós. Ó mãe de reis e avó de imperios, Vella por nós! Teu seio augusto amamentou Com bruta e natural certeza O que, imprevisto, Deus fadou. Por elle resa! Dê tua prece outro destino A quem fadou o instincto teu! O homem que foi o teu menino Envelheceu. Mas todo vivo é eterno infante Onde estás e não ha o dia. No antigo seio, vigilante, De novo o cria! D. Affonso Henriques Pae, foste cavalleiro. Hoje a vigilia é nossa. Dá-nos o exemplo inteiro E a tua inteira força! Dá, contra a hora em que, errada, Novos infieis vençam, A benção como espada, A espada como benção! D. Diniz Na noite escreve um seu Cantar de Amigo O plantador de naus a haver, E ouve um silencio murmuro comsigo: É o rumor dos pinhaes que, como um trigo De Imperio, ondulam sem se poder ver. Arroio, esse cantar, jovem e puro, Busca o oceano por achar; E a falla dos pinhaes, marulho obscuro, É o som presente d'esse mar futuro, É a voz da terra anciando pelo mar. D. João o Primeiro O homem e a hora são um só Quando Deus faz e a história é feita. O mais é carne, cujo pó A terra espreita. Mestre, sem o saber, do Templo Que Portugal foi feito ser, Que houveste a gloria e deste o exemplo De o defender. Teu nome, eleito em sua fama, É, na ara da nossa alma interna, A que repelle, eterna chamma, A sombra eterna. D. Philippa de Lencastre Que enigma havia em teu seio Que só genios concebia? Que archanjo teus sonhos veio Vellar