マイア家の人々 — エサ・デ・ケイロス
You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.org . If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook. Title : Os Maias: episodios da vida romantica Author : Eça de Queirós Release date : August 4, 2012 [eBook #40409] Most recently updated: October 23, 2024 Language : Portuguese Other information and formats : www.gutenberg.org/ebooks/40409 Credits : Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões, Graça Horta and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal) and Biblioteca Dulce Ferrão -- Biblioteca-Museu República e Resistência.) *** START OF Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos. Na versão original, esta obra é uma compilação de dois volumes, com capítulos e paginação independentes, publicadas numa só obra. Respeitando o original, compilámos num só HTML ambas as partes: Primeiro Volume Segundo Volume Rita Farinha (Agosto 2012) Porto: Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 70 EÇA DE QUEIROZ OS MAIAS EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA VOLUME I PORTO Livraria Internacional de Ernesto Chardron CASA EDITORA LUGAN & GENELIOUX, Successores 1888 Todos os direitos reservados OBRAS DO MESMO AUCTOR O Crime do Padre Amaro , edição inteiramente refundida, recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso vol. 1$200 O Primo Bazilio. 3.ª edição. 1 grosso vol. 1$000 O Mandarim. 2.ª edição. 1 vol. 500 A Reliquia. 1 grosso vol. 1$000 OS MAIAS VOLUME I OS MAIAS I A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na visinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janellas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete . Apesar d'este fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete , sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma timida fila de janellinhas abrigadas á beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de Residencia Ecclesiastica que competia a uma edificação do reinado da sr. a D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo assimilhar-se-hia a um Collegio de Jesuitas. O nome de Ramalhete provinha de certo d'um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no logar heraldico do Escudo d'Armas, que nunca chegara a ser collocado, e representando um grande ramo de girasoes atado por uma fita onde se distinguiam letras e numeros d'uma data. Longos annos o Ramalhete permanecera deshabitado, com teias d'aranha pelas grades dos postigos terreos, e cobrindo-se de tons de ruina. Em 1858 Monsenhor Buccarini, Nuncio de S. Santidade, visitara-o com idéa d'installar lá a Nunciatura, seduzido pela gravidade clerical do edificio e pela paz dormente do bairro: e o interior do casarão agradara-lhe tambem, com a sua disposição apalaçada, os tectos apainelados, as paredes cobertas de frescos onde já desmaiavam as rosas das grinaldas e as faces dos Cupidinhos. Mas Monsenhor, com os seus habitos de rico prelado romano, necessitava na sua vivenda os arvoredos e as agoas d'um jardim de luxo: e o Ramalhete possuia apenas, ao fundo d'um terraço de tijolo, um pobre quintal inculto, abandonado ás hervas bravas, com um cypreste, um cedro, uma cascatasinha secca, um tanque entulhado, e uma estatua de marmore (onde Monsenhor reconheceu logo Venus Citherêa) ennegrecendo a um canto na lenta humidade das ramagens silvestres. Além d'isso, a renda que pedio o velho Villaça, procurador dos Maias, pareceu tão exagerada a Monsenhor, que lhe perguntou sorrindo se ainda julgava a Egreja nos tempos de Leão X. Villaça respondeu—que tambem a nobreza não estava nos tempos do sr. D. João V. E o Ramalhete continuou deshabitado. Este inutil pardieiro (como lhe chamava Villaça Junior, agora por morte de seu pae administrador dos Maias) só veio a servir, nos fins de 1870, para lá se arrecadaram as mobilias e as louças provenientes do palacete de familia em Bemfica, morada quasi historica, que, depois de andar annos em praça, fôra então comprada por um commendador brazileiro. N'essa occasião vendera-se outra propriedade dos Maias, a Tojeira ; e algumas raras pessoas que em Lisboa ainda se lembravam dos Maias, e sabiam que desde a Regeneração elles viviam retirados na sua quinta de Santa Olavia, nas margens do Douro, tinham perguntado a Villaça se essa gente estava atrapalhada. —Ainda teem um pedaço de pão, disse Villaça sorrindo, e a manteiga para lhe barrar por cima. Os Maias eram uma antiga familia da Beira, sempre pouco numerosa, sem linhas collateraes, sem parentellas—e agora reduzida a dois varões, o senhor da casa, Affonso da Maia, um velho já, quasi um antepassado, mais edoso que o seculo, e seu neto Carlos que estudava medicina em Coimbra. Quando Affonso se retirara definitivamente para Santa Olavia, o rendimento da casa excedia já cincoenta mil cruzados: mas desde então tinham-se accumulado as economias de vinte annos de aldêa; viera tambem a herança d'um ultimo parente, Sebastião da Maia, que desde 1830 vivia em Napoles, só, occupando-se de numismatica;—e o procurador podia certamente sorrir com segurança quando fallava dos Maias e da sua fatia de pão. A venda da Tojeira fôra realmente aconselhada por Villaça: mas nunca elle approvara que Affonso se desfizesse de Bemfica—só pela rasão d'aquelles muros terem visto tantos desgostos domesticos. Isso, como dizia Villaça, acontecia a todos os muros. O resultado era que os Maias, com o Ramalhete inhabitavel, não possuiam agora uma casa em Lisboa; e se Affonso n'aquella edade amava o socego de Santa Olavia, seu neto, rapaz de gosto e de luxo que passava as ferias em Paris e Londres, não quereria, depois de formado,