O Cortiço — Aluísio Azevedo
O Cortiço ALUIZIO AZEVEDO O CORTIÇO PRIMEIRO MILHEIRO RIO DE JANEIRO B. L. GARNIER — livreiro-editor 71, Rua do Ouvidor, 71 1890 INDICE Cap. Pag. I II III IV V VI VII VIII IX X XI XII XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX XXI XXII XXIII I I João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco annos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro de Botafogo; e tanto economisou do pouco que ganhára nessa dúzia de annos, que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro. Proprietario e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se á labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delirio de enriquecer, que affrontava resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um sacco de estopa cheio de palha. A comida arranjava-lh’a, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de Fora e amigada com um portuguez que tinha uma carroça de mão e fazia fretes na cidade. Bertoleza tambem trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem afreguezada do bairro. De manhã vendia angú, e à noite peixe frito e iscas de figado; pagava de jornal a seu dono vinte mil réis por mez, e, apezar disso, tinha de parte quasi que o necessario para a alforria. Um dia, porém, o seu homem, depois de correr meia legua, puxando uma carga superior às suas forças, cahio morto na rua, ao lado da carroça, estrompado como uma besta. João Romão mostrou grande interesse por esta desgraça, fez-se até participante directo dos soffrimentos da vizinha, e com tamanho empenho a lamentou, que a boa mulher o escolheu para confidente das suas desventuras. Abrio-se com elle, contou-lhe a sua vida de amofinações e difficuldades. «Seu senhor comia-lhe a pelle do corpo! Não era brinquedo para uma pobre mulher ter de escarrar p’rali, todos os mezes, vinte mil réis em dinheiro! E segredou-lhe então o que já tinha junto para a sua liberdade e acabou pedindo ao vendeiro que lhe guardasse as economias, porque já de certa vez fôra roubada por gatunos que The entraram na quitanda pelos fundos. Dahi em diante, João Romão tornou-se o caixa, o procurador e o conselheiro da crioula. No fim de pouco tempo era ele quem tomava conta de tudo que ella produzia e era também quem punha e dispunha dos seus pecúlios, e quem se encarregava de remeter ao senhor os vinte mil réis mensais. Abriu-lhe logo uma conta corrente, e a quitandeira, quando precisava de dinheiro para qualquer coisa, dava um pulo até à venda e recebia-o das mãos do vendeiro, de « Seu João, » como ella dizia. Seu João debitava methodicamente essas pequenas quantias n’um quaderninho, em cuja capa de papel pardo lia-se, mal escripto e em letras cortadas de jornal: « Ativo e passivo de Bertoleza. » E por tal forma foi o taverneiro ganhando confiança no espirito da mulher, que esta afinal nada mais resolvia só por si, e aceitava delle, cegamente, todo e qualquer arbitrio. Por último, se alguém precisava tratar com ella qualquer negócio, nem mais se dava ao trabalho de procural-a, ia logo direito a João Romão. Quando deram fé estavam amigados. Ele propoz-lhe morarem juntos e ela concordou de braços abertos, feliz em meter-se de novo com um portuguez, porque, como toda a cafusa, Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e procurava instinctivamente o homem numa raça superior á sua. João Romão comprou então, com as economias da amiga, alguns palmos de terreno ao lado esquerdo da venda, e levantou uma casinha de duas portas, dividida ao meio parallelamente á rua, sendo a parte da frente destinada á quitanda e a do fundo para um dormitorio que se arranjou com os cacarecos de Bertoleza. Havia, além da cama, uma cômoda de jacarandá, muito velha com maçanetas de metal amarelo já mareadas, um oratorio cheio de santos e forrado de papel de côr, um bahú grande, de couro crú tacheado, dois banquinhos de páo feitos de uma só peça e um formidavel cabide de pregar na parede, com a sua competente coberta de retalhos de chita. O vendeiro nunca tivera tanta mobilia. — Agora, disse ele á crioula, as coisas vão correr melhor para você. Você vae ficar fôrra; eu entro com o que falta. Nesse dia ele saiu muito á rua, e uma semana depois appareceu com uma folha de papel toda escripta, que leu em voz alta á companheira. — Você agora não tem mais senhor! declarou em seguida à leitura, que ella ouviu entre lagrimas agradecidas. Agora está livre! De ora avante o que você fizer é só seu e mais de seus filhos, se os tiver. Acabou-se o captiveiro de pagar os vinte mil réis á peste do cego! — Coitado! A gente se queixa é da sorte! Elle, como meu senhor, exigia o jornal, exigia o que era seu! — Seu ou não seu, acabou-se! E vida nova! Contra todo o costume, abrio-se nesse dia uma garrafa de vinho do Porto, e os dois beberam-n’a em honra ao grande acontecimento. Entretanto, a tal carta de liberdade era obra do proprio João Romão, e nem mesmo o sello, que ele entendeu de pespegar-lhe em cima, para dar á burla maior formalidade, representava despeza porque o esperto aproveitára uma estampilha já servida. O senhor de Bertoleza não teve sequer conhecimento do facto; o que lhe constou, sim, foi que a sua escrava lhe havia fugido para a Bahia depois da morte do amigo. — O cego que venha buscal-a aqui, se fôr capaz!… desafiou o vendeiro de si para si. Elle que caia nessa e verá se tem ou não pra peras! Não obstante, só ficou tranquillo de todo dahi a tres mezes, quando lhe constou a morte do velho. A escrava passára naturalmente em herança a qualquer dos filhos do morto; mas, por estes, nada havia que receiar: dous pandegos de marca maior que, empolgada a legitima, cuidariam de tudo, menos de atirar-se na pista de uma crioula a quem não viam de muitos annos áquella parte. Ora! bastava já, e não era