キンカス・ボルバ — マシャード・デ・アシス
You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.org . If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook. Title : Quincas Borba Author : Machado de Assis Release date : October 5, 2017 [eBook #55682] Most recently updated: October 23, 2024 Language : Portuguese Other information and formats : www.gutenberg.org/ebooks/55682 Credits : Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free Literature (online soon in an extended version,also linking to free sources for education worldwide ... MOOC's, educational materials,...) (Images generously made available by the Internet Archive.) *** START OF L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR 1891 OBRAS DO AUTOR Memorias Posthumas de Braz Cubas Quincas Borba Histórias sem data Papéis avulsos Historias da meia noite Yayá Garcia, romance Helena, romance Resurreição, romance A mão e a luva, romance Contos Fluminenses Americanas, poesias Phalenas, poesias Chrysalidas, poesias Tu só, tu, puro amor, comédia QUINCAS BORBA CAPITULO PRIMEIRO Rubião fitava a enseada,—eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares mettidos no cordão do chambre, á janella de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que elle admirava aquelle pedaço de agua quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra cousa. Cotejava o passado com o presente. Que era, ha um anno? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinellas (umas chinellas de Tunis, que lhe deu recente amigo, Christiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o ceu; e tudo, desde as chinellas até o ceu, tudo entra na mesma sensação de propriedade. —Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa elle. Se a mana Piedade tem casado com o Quincas Borba, apenas me daria uma esperança collateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo commigo; de modo que o que parecia uma desgraça... CAPITULO II Que abysmo que ha entre o espirito e o coração! O espirito do ex-professor, vexado daquelle pensamento, arrepiou caminho, buscou outro assumpto, uma canoa que ia passando; o coração, porém, deixou-se estar a bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o canoeiro, que os olhos de Rubião acompanham, arregalados? Elle, coração, vae dizendo que, uma vez que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que não casasse; podia vir um filho ou uma filha... —Bonita canoa!—Antes assim!--Como obedece bem aos remos do homem!—O certo é que elles estão no ceu! CAPITULO III Um creado trouxe o café. Rubião pegou na chicara, e, em quanto lhe deitava assucar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. Prata, ouro, eram os metaes que amava de coração; não gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era materia de preço, e assim se explica este par de figuras que aqui está na sala, um Mephistopheles e um Fausto. Tivesse, porém, de escolher, escolheria a bandeja,—primor de argentaria, execução fina e acabada. O creado esperava tezo e serio. Era hespanhol; e não foi sem resistencia que Rubião o acceitou das mãos de Christiano; por mais que lhe dissesse que estava acostumado aos seus creoulos de Minas, e não queria linguas estrangeiras em casa, o amigo Palha insistiu, demonstrando-lhe a necessidade de ter creados brancos. Rubião cedeu com pena. O seu bom pagem, que elle queria pôr na sala, como um pedaço da provincia, nem o pôde deixar na cosinha, onde reinava um francez, Jean; foi degradado a outros serviços. —Quincas Borba está muito impaciente? perguntou Rubião bebendo o ultimo golo de café, e lançando um ultimo olhar á bandeja. — Me parece que si. —Lá vou soltal-o. Não foi; deixou-se ficar, algum tempo, a olhar para os moveis. Vendo as pequenas gravuras inglezas, que pendiam da parede por cima dos dous bronzes, Rubião pensou na bella Sophia, mulher do Palha, deu alguns passos, e foi sentar-se no pouf , ao centro da sala, olhando para longe... —Foi ella que me recommendou aquelles dous quadrinhos, quando andavamos os tres, a ver cousas para comprar. Estava tão bonita! Mas o que eu mais gosto della são os hombros, que vi no baile do coronel. Que hombros! Parecem de cera; tão lisos, tão brancos! Os braços tambem; oh! os braços! Que bem feitos! Rubião suspirou, cruzou as pernas, e bateu com as borlas do chambre sobre os joelhos. Sentia que não era inteiramente feliz; mas sentia tambem que não estava longe a felicidade completa. Recompunha de cabeça uns modos, uns olhos, uns requebros sem explicação, a não ser esta, que ella o amava, e que o amava muito. Não era velho; ia fazer quarenta e um annos; e, rigorosamente, parecia menos. Esta observação foi acompanhada de um gesto; passou a mão pela cara, barbeada todos os dias, cousa que não fazia d'antes, por economia e desnecessidade. Um simples professor! Usava suissas, (mais tarde deixou crescer a barba toda),—tão macias, que dava gosto passar os dedos por ellas... E recordava assim o primeiro encontro, na estação de Vassouras, onde Sophia e o marido entraram no trem da estrada de de ferro, no mesmo carro em que elle descia de Minas; foi alli que achou aquelle par de olhos viçosos, que pareciam repetir a exhortação do propheta: Todos vós que tendes sede, vinde ás aguas. Não trazia ideias adequadas ao convite, é verdade; vinha com a herança na cabeça, o testamento, o inventario, cousas que é preciso explicar primeiro, afim de entender o presente e o futuro. Deixemos Rubião na sala de Botafogo, batendo com as borlas do chambre nos joelhos, e cuidando na bella Sophia. Vem commigo, leitor; vamos vel-o, mezes antes, á cabeceira do Quincas Borba. CAPITULO IV Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler as Memorias posthumas de Braz Cubas , é aquelle mesmo naufrago da existencia, que alli apparece, mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma philosophia. Aqui o tens agora em Barbacena. Logo que chegou, enamorou-se de uma viuva