A Cidade e as Serras — Eça de Queirós
EÇA DE QUEIROZ A CIDADE E AS SERRAS PORTO LIVRARIA CHARDRON De Lello & Irmão, editores 1901 Todos os direitos reservados EÇA DE QUEIROZ A CIDADE E AS SERRAS PORTO LIVRARIA CHARDRON De Lello & Irmão, editores 1901 Todos os direitos reservados Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do art. 13.^o da mesma Lei. _Porto--Imprensa Moderna_ [Figura de Eça de Queirós] A CIDADE E AS SERRAS Obras do mesmo auctor: *Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000 *As minas de Salomão.* 1 volume $600 *Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000 *O crime do padre Amaro.* Terceira edição inteiramente refundida, recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso volume 1$200 *O primo Bazilio.* Quarta edição. 1 grosso volume 1$000 *A Reliquia.* 1 grosso volume 1$000 *O Mandarim.* Quarta edição. 1 volume $500 *Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume $600 *A illustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000 A CIDADE E AS SERRAS I O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e d'olival. No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torrão lhe pagava fôro. E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga até ao mar d'Ancora. Mas o palacio onde Jacintho nascêra, e onde sempre habitára, era em Paris, nos Campos Elyseos, n.^o 202. Seu avô, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em Lisboa o _D. Galião_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta, rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e botas altas de picador, que, galhofando e com uma força facil, levantou o enorme Jacintho--até lhe apanhou a bengala de castão d'ouro que rolára para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos: --Oh Jacintho Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas pedras? E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. Miguel! Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amára, apesar de tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto o seu Deus! Na sala nobre da sua casa (á Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do «seu Salvador», enfeitado de palmitos como um retabulo, e por baixo a bengala que as magnanimas mãos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim do Zé-Maria em Belem á botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades do _anginho_, a tramar o regresso do _anginho_. No dia, entre todos bemdito, em que a _Perola_ appareceu á barra com o Messias, engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava de cima do seu corcel d'Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia vomitando a Carta. Durante a guerra com o «outro, com o pedreiro livre» mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres, caixas de dôce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz atochadas de peças que elle ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um macho, tomára o caminho de Sines e do final desterro--Jacintho _Galião_ correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando furiosamente: --Tambem cá não fico! tambem cá não fico! Não, não queria ficar na terra perversa d'onde partia, esbulhado e escorraçado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os Jacinthos! Embarcou para França com a mulher, a snr.^a D. Angelina Fafes (da tão fallada casa dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino amarellinho, mollesinho, coberto de caróços e leicenços; com a aia e com o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou tão rijos mares que a snr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma corôa d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio até uma aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram nos bancos d'uma taberna. No «Hotel dos Santos Padres», em Paris, soffreram os terrores d'um fogo que rebentára na cavalhariça, sob o quarto de _D. Galião_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em camisa, até ao pateo, enterrou o pé nú numa lasca de vidro. Então ergueu amargamente ao céo o punho cabelludo, e rugiu: --Irra! É de mais! Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho _Galião_ comprou a um Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera frade cartuxo, aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.^o 202. E sob o pesado ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou, descançando de tantas agitações, n'uma vida de pachorra e de boa mesa, com alguns companheiros d'emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde de Rabacena, outros menores), até que morreu de indigestão, d'uma lampreia d'escabeche que lhe mandára o seu procurador em Monte-mór. Os amigos pensavam que a snr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a boa senhor