Memórias de um Sargento de Milícias — Manuel Antônio de Almeida
Memórias de um Sargento de Milícias Índice : Capítulo 1 - Origem, nascimento e batismo Capítulo 2 - Primeiros infortúnios Capítulo 3 - Despedidas às travessuras Capítulo 4 - Fortuna Capítulo 5 - O Vidigal Capítulo 6 - Primeira noite fora de casa Capítulo 7 - A Comadre Capítulo 8 - Pátio dos bichos Capítulo 9 - O "arranjei-me" do compadre Capítulo 10 - Explicações Capítulo 11 - Progresso e atraso Capítulo 12 - Entrada para a escola Capítulo 13 - Mudança de vida Capítulo 14 - Nova vingança e seu resultado Capítulo 15 - Estralada Capítulo 16 - Sucesso do plano Capítulo 17 - D. Maria Capítulo 18 - Amores Capítulo 19 - Domingo do Espírito Santo Capítulo 20 - O Fogo no campo Capítulo 21 - Contrariedades Capítulo 22 - Aliança Capítulo 23 - Declaração Capítulo 24 - A Comadre em exercício Capítulo 25 - Trama Capítulo 26 - Derrota Capítulo 27 - O Mestre-de-reza Capítulo 28 - Transtorno Capítulo 29 - Pior transtorno Capítulo 30 - Remédio aos males Capítulo 31 - Novos amores Capítulo 32 - José Manuel triunfa Capítulo 33 - O Agregado Capítulo 34 - Malsinação Capítulo 35 - Triunfo completo de José Manuel Capítulo 36 - Escapula Capítulo 37 - O Vidigal desapontado Capítulo 38 - Caldo entornado Capítulo 39 - Ciúmes Capítulo 40 - Fogo de palha Capítulo 41 - Represálias Capítulo 42 - O granadeiro Capítulo 43 - Novas diabruras Capítulo 44 - Descoberta Capítulo 45 - Empenhos Capítulo 46 - As três em comissão Capítulo 47 - A morte é juiz Capítulo 48 - Conclusão feliz Capítulo 1 - Origem, nascimento e batismo Era no tempo do rei. Uma das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando-se mutuamente, chamava-se nesse tempo-O canto dos meirinhos-; e bem lhe assentava o nome, porque era aí o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os extremos se tocam, e estes, tocando-se, fechavam o círculo dentro do qual se passavam os terríveis combates das citações, provarás, razões principais e finais, e todos esses trejeitos judiciais que se chamava o processo. Daí sua influência moral. Mas tinham ainda outra influência, que é justamente a que falta aos de hoje: era a influência que derivava de suas condições físicas. Os meirinhos de hoje são homens como quaisquer outros; nada têm de imponentes, nem no seu semblante nem no seu trajar, confundem-se com qualquer procurador, escrevente de cartório ou contínuo de repartição. Os meirinhos desse belo tempo não, não se confundiam com ninguém; eram originais, eram tipos, nos seus semblantes transluzia um certo ar de majestade forense, seus olhares calculados e sagazes significavam chicana. Trajavam sisuda casaca preta, calção e meias da mesma cor, sapato afivelado, ao lado esquerdo aristocrático espadim, e na ilharga direita penduravam um círculo branco, cuja significação ignoramos, e coroavam tudo isto por um grave chapéu armado. Colocado sob a importância vantajosa destas condições, o meirinho usava e abusava de sua posição. Era terrível quando, ao voltar uma esquina ou ao sair de manhã de sua casa, o cidadão esbarrava com uma daquelas solenes figuras que, desdobrando junto dele uma folha de papel, começava a lê-la em tom confidencial! Por mais que se fizesse não havia remédio em tais circunstâncias senão deixar escapar dos lábios o terrível-Dou-me por citado.-Ninguém sabe que significação fatalíssima e cruel tinham estas poucas palavras! eram uma sentença de peregrinação eterna que se pronunciava contra si mesmo; queriam dizer que se começava uma longa e afadigosa viagem, cujo termo bem distante era a caixa da Relação, e durante a qual se tinha de pagar importe de passagem em um sem-número de pontos; o advogado, o procurador, o inquiridor, o escrivão, o juiz, inexoráveis Carontes, estavam à porta de mão estendida, e ninguém passava sem que lhes tivesse deixado, não um óbolo, porém todo o conteúdo de suas algibeiras, e até a última parcela de sua paciência, Mas voltemos à esquina. Quem passasse por aí em qualquer dia útil dessa abençoada época veria sentado em assentos baixos, então usados, de couro, e que se denominavam-cadeiras de campanha-um grupo mais ou menos numeroso dessa nobre gente conversando pacificamente em tudo sobre que era lícito conversar: na vida dos fidalgos, nas notícias do Reino e nas astúcias policiais do Vidigal. Entre os termos que formavam essa equação meirinhal pregada na esquina havia uma quantidade constante, era o Leonardo-Pataca. Chamavam assim a uma rotunda e gordíssima personagem de cabelos brancos e carão avermelhado, que era o decano da corporação, o mais antigo dos meirinhos que viviam nesse tempo. A velhice tinha-o tornado moleirão e pachorrento; com sua vagareza atrasava o negócio das partes; não o procuravam; e por isso jamais saía da esquina; passava ali os dias sentado na sua cadeira, com as pernas estendidas e o queixo apoiado sobre uma grossa bengala, que depois dos cinqüenta era a sua infalível companhia. Do hábito que tinha de queixar-se a todo o instante de que só pagassem por sua citação a módica quantia de 320 réis, lhe viera o apelido que juntavam ao seu nome. Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo algibebe em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o quê, uma certa Maria da hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitota. O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e sobretudo era maganão. Ao